Genética em Cães de Trabalho

Há muitos anos que os cães são parceiros dos homens em diversas funções, e de acordo com a necessidade, intencionalmente ou ao acaso, surgiram raças com aptidões físicas e mentais específicas a cada trabalho.
Atualmente, a progressiva diminuição do contato que os criadores têm com o real trabalho original de cada raça leva a dificuldade de estabelecimento de critérios das raças e só cria polêmicas nocivas ao melhoramento genético.

O que realmente é importante em um cão de trabalho, a estrutura física ou o temperamento? Estas características são genéticas ou ambientais? Como conduzir a criação de uma raça de trabalho? Estas questões são cada vez mais presentes, e é cada vez maior o número de opiniões e posturas sem fundamento.
Quando se trata de uma raça para o trabalho, o que interessa na verdade é o desempenho funcional. Um animal com falhas anatômicas, pouca musculatura, angulações inadequadas, ossatura frágil e outros problemas, terá sem dúvida nenhuma sua capacidade de trabalho limitada. De outro lado, um animal “fraco de nervos”, com baixos impulsos, e pouca dureza, mesmo possuindo uma estrutura atlética, nunca terá desempenho. Portanto os dois são importantes, um é suporte para o outro. A seleção de uma raça de trabalho não pode ser feita estritamente com base no temperamento, e muito menos pela estrutura ou estética, deve sim ser fundamentada no desempenho dos indivíduos.

Genética X Ambiente

Para nortear nosso raciocínio, é útil conhecermos o significado do termo HERDABILIDADE. Em genética e melhoramento animal, herdabilidade é o nome que se dá a fração de uma característica que é herdada, o quanto é realmente genético. A herdabilidade pode variar de 0 a 1, e quanto mais próxima de 1, mais herdável é esta característica, ou mais importante é a genética para sua manifestação.

É fácil de se perceber que características estéticas ou visuais, de uma forma geral, possuem uma alta herdabilidade, como por exemplo a cor “Black na Tan”do rottweiler, que muito pouco é influenciada por aspectos ambientais.
Em contrapartida, problemas como a displasia coxofemoral possuem origens sabidamente genéticas associadas a fatores ambientais relevantes, como nutrição e manejo.
A grande questão é o temperamento. Algumas correntes da psicologia defendem o ambiente como fator principal de construção do comportamento, praticamente desprezando aspectos genéticos. Nossa experiência prática aliada à opiniões de “Toptrainers” no mundo e importantes centros de criação de cães de serviço não nos deixa concordar muito com isto. A genética exerce um papel importantíssimo na manifestação comportamental. Acreditamos que genética e ambiente se interagem constantemente na formação do individuo. Sem boa genética não há alto desempenho, por melhor que seja o ambiente e a técnica de treinamento.

Seleção e Criação

A criação de cães de trabalho talvez seja a tarefa mais complicada do universo dos serviços caninos. É muito difícil de se avaliar o temperamento, como já vimos, trata-se de uma herança com inumeráveis genes e combinações e fortemente influenciada pelo ambiente, não conseguimos “ver” o temperamento de um cão em uma exposição de estrutura ou beleza. A forma mais prática e mais aconselhável de se selecionar cães de trabalho é a avaliação de seu desempenho final.
Hoje, por circunstâncias de época, em muitos casos talvez estejamos distantes das funções dos cães, e as competições esportivas são grandes aliadas da criação; podemos utilizar provas como o schutzhund, ringsport, pastoreio, caça, detecção etc., de acordo com a finalidade da raça. Temos subsídios lógicos para afirmar que um bom reprodutor de trabalho deverá possuir filhos com alto desempenho em trabalho, e se uma raça de trabalho estiver sendo corretamente criada, cães desta raça inevitavelmente terão bons resultados em serviço e competições afins. Devemos usar as provas de trabalho específicas à cada função como um aferidor de como está sendo conduzida a criação de determinada raça.
Para que haja seleção e melhoramento genético da criação é necessário observarmos outro conceito técnico, o da ‘pressão seletiva”. Para melhor entendermos, podemos usar uma ferramenta chamada “curva de distribuição normal de uma população” ou “curva de Gauss”

Este é um gráfico clássico de estatística de populações. Na reta “x” utilizamos uma variável hipotética, o desempenho dos indivíduos. Neste gráfico podemos notar que o maior número de indivíduos se situa na média de desempenho ou em torno dela. Observamos também que o numero de indivíduos com maior desempenho é reduzido (área hachurada da direita) , assim como o numero de indivíduos de baixo desempenho (área hachurada da esquerda).
A “pressão seletiva” consiste em se estabelecer um padrão mínimo (neste caso um desempenho mínimo aceitável), excluir os indivíduos com desempenho abaixo deste padrão (a esquerda), e utilizar na reprodução os indivíduos situados a direita do padrão mínimo estabelecido. Exercemos desta forma uma “pressão” para que esta curva se desloque para a direita, conseguindo desta forma um melhoramento genético.

No primeiro instante teremos uma redução drástica da população, mas quando o numero de indivíduos estiver estabelecido, possuiremos uma mesma população com maior média de desempenho:
Toda população que acasala aleatoriamente entre si, ou seja, indivíduos situados em qualquer posição na curva reproduzindo-se indiscriminadamente, tende a tornar sua curva de freqüência gênica estável, sem se deslocar. Portanto, sem pressão seletiva não há melhoramento genético.

Conclusões

O melhoramento animal nos apresenta um vasto campo de discussões. Não temos como objetivo determinar um padrão de criação, mesmo porque nem abordamos aspectos como displasia coxofemoral, displasia de cotovelo, hemofilia, e outras patologias de cunho genético. A idéia é compreendermos as bases científicas do melhoramento, para obtermos sucesso maior nesta frustrante incursão de criar cães para trabalho.
Devemos estabelecer critérios rígidos de escolha dos reprodutores e matrizes, sempre baseados no desempenho. É imprescindível que utilizemos a melhor técnica de treinamento para que os animais expressem ao máximo seu potencial genético e nos forneçam uma correta avaliação de sua capacidade de trabalho.

Para alcançar nossos propósitos sem naufragar, todos os segmentos envolvidos na criação devem ser competentes em sua função e em sintonia com um objetivo comum. Os juízes de provas precisam ser treinadores e competidores atualizados e atuantes; os treinadores devem aprimorar incessantemente sua técnica; os figurantes de prova devem ser honestos e conscientes da importância do seu papel, e, os criadores devem ser assessorados de perto pelos anteriores.
Finalizando, não nasce laranja em coqueiro, e não conseguiremos desenvolver uma raça de trabalho se esta for selecionada pela estética. A única maneira de se conduzir a criação de uma raça de trabalho é através do desempenho dos indivíduos em trabalho.

FONTE: 

Autor do texto: Max Mendes Macedo
Presidente do Clube Mineiro de Cães de Trabalho
Médico Veterinário
Juiz de Cães de Trabalho CBKC

Compartilhe com os amigos:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *